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Revista de Liturgia

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As Santas Testemunhas da Páscoa no Ano Litúrgico

Edição número 257

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No catolicismo popular, a devoção aos santos e santas é das expressões mais queridas da fé do povo. Movido por essa devoção, os fiéis - sobretudo os pobres - peregrinam em massa em direção aos santuários, seja à procura de algum benefício, seja para agradecer graças alcançadas. Ao longo da história, à medida que o cristianismo perde sua força evangélica, acentua-se, progressivamente, a diferenciação entre a Liturgia oficiada em latim e a piedade popular expressa em língua vernácula.

Se, de um lado, o povo católico, do campo e da cidade, que permaneceu sem acompanhamento pastoral e entregue à própria sorte, pôde, com isso, livrar-se do peso doutrinal e institucional, de outro, enveredou para um devocionismo muitas vezes destituído de bíblia e de liturgia.

A recente reforma do calendário litúrgico causou grandes conflitos com a piedade popular, ainda hoje sentidos e expressos na fala dos devotos e devotas. Um exemplo desses embates foi a opção, inicialmente, por retirar das igrejas, com pouca pedagogia pastoral e espiritual, as imagens dos santos, iniciativa que mostrou o quanto falta sensibilidade para com a fé do povo. Uma atitude mais adequada, ao contrário, teria sido buscar ressignificar a devoção aos santos e santas e, ao mesmo tempo, redescobrir, a partir deles, todo o significado de fazer memória do Cristo como realidade central de nossa fé.

De fato, o que o Concílio propôs com a reforma do santoral tem tudo a ver com a maneira como a Igreja, desde os seus primórdios, honrou a memória das testemunhas da fé, especialmente daquelas que fizeram uma entrega radical de suas vidas em consequência da adesão a Cristo, mas também de todos os que permaneceram fiéis a Jesus até o fim, mesmo sem passar pelo martírio. Segundo essa tradição, quando uma comunidade se reúne para fazer memória de um santo ou santa, o que está em foco é o testemunho evangélico de sua vida, sua identificação com o Cristo solidário à humanidade e o quantoessa  experiência rememorada pode inspirar a igreja ainda peregrina. O que não desmerece, evidentemente, o auxílio de sua intercessão junto a Deus pelas  necessidades de seus devotos.

No atual contexto eclesial, mais do que nunca, faz-se necessário retomar o desejado diálogo entre liturgia e piedade popular, previsto no artigo 13 da Sacrosanctum Concilium. Hoje, no entanto, com uma melhor compreensão da sua importância como espaço de criatividade e autonomia das comunidades, mas sem cair na tentação de alimentar uma devoção infantilizante, que reduz a fé a “moeda de troca”. As  pessoas que viveram radicalmente a fé são fonte a inspirar e alimentar o nosso caminho em busca de conversão pessoal e de militância responsável a serviço do reino. Deste diálogo pode crescer e se fortalecer uma expressão litúrgica autenticamente enraizada na cultura do povo.